Logo de manhã, assim que abro a janela do meu peito e ouço pássaros cantando, já tomo a minha dose diária de fascínio — por mim e pela Vida. É por isso que, como o Mefistófeles de Goethe, em cada mulher eu vejo uma Helena de Tróia. Dizem que esse é o meu maior defeito. Mas eu acho essa a minha melhor virtude.
Ficamos conversando na sala, soltos, dois pássaros livres e surpresos com tamanha gostosura. Joyce: "clair de lune" sobre nós, cortina de luar atormentada por violar a tua sombra. Chazinho com fatias de laranja, vinho rubro, água cristalina, variações de Paganini nos deixando bêbados de amor por essa musa. Nalgum lugar do presente, o passado se mostra ao futuro. Apago as luzes para que ela interrompa a visão do Botticelli, e mergulhe no escuro de Beethoven. Um pedacinho delicado de chocolate voa em direção à sua boca, um sorriso de criança dança nos seus lábios indecisos.
Eine kleine Nachtmusik me faz lembrar que ela é hoje o único esplendor da minha vida. Herrlichkeit. Quarenta vezes ouvimos a sinfonia número igual de Mozart, e a quinta do Ludwig parece nove, de tanto que cresceu entre nós dois. Vejo em seus olhos um sono que ela diz que não sente, vontade absoluta de tocar-lhe os pés descalços, mas me contenho no meu canto e no meu grito.
Ao seu lado uma Lolita de trancinhas, cavalgando em pêlo um cavalo branco chamado Volúpia. Por último, vem Ravel derramando seu Bolero sobre aqui, e ela me diz que acabam de pousar em sua mente os prazeres carnais da vitória desejante.
Só me resta beijar-lhe as mãos, como se lhe beijasse os pés.
E levá-la, como se eu fosse.
Nossas noites estão apenas começando, Joyce Ann.
Chamo Kitaro com seus dois tambores, e fico pensando.
As mulheres que amo não podem ser tão belas ao ponto de excluir o raciocínio. E, caso o sejam, procuro reduzir-lhes a beleza com os meus próprios olhos — só para salvá-las de uma perda irreparável. Me lembro agora de Jeane, a feiticeira que tem um quê de Mim, o arquétipo da beleza exagerada. Alfredo me olha de dentro do aquário, dizendo que tem saudades dela. E me lembro da sorte que tenho, pois nem preciso ornar-me de fitas: a dignidade já me basta.
Treze: esse número exerce impressionante fascínio sobre mim, não pela idade que pode representar mas pelo número em si. O vento que me refresca é o mesmo que agita seus cabelos. Agita loucamente como se agitasse uma bandeira.
E meu coração sussurra, enfim: "ela veio".
— Treze anos.
E o bilhetinho aí de cima ela o fez pra mim certa vez que ficou em minha casa me esperando quatro dias...
Inocente anjo feito de paixões e olhos negros. Penugem de âmbar em pernas puras e mãos de seda que me agarram sem que saibam bem por quê. Só posso me apaixonar de novo: é a vida. Há corações inocentes desenhados no mármore da escada. Logo logo uma Lolita estará dormindo em minha casa, sozinha — no outro quarto. A palavra que ela me evoca é Ternura. Hoje eu me chamo Humbert Humbert. Batem de novo à porta: desta vez é o Sr Vladimir Nabokov que veio trazer-me a alma que de mim se havia perdido e vagava pelo mundo. A primeira coisa que faço é velar o sono dessa menina — à distância. Fico acordado a noite toda, posso ouvir até sua respiração encantada. Bem de manhãzinha, quase ainda madrugada, coloco Beethoven (Clair de lune, primeiro movimento, repetindo, repetindo) — e eu espero que ela se acorde naturalmente.
"Que música mais linda!" — disse-me alguns minutos depois, com carinha de sono e de anjo ao mesmo tempo.
Vibrei.
(Amo-a mais ainda por isso mesmo!)
O sol, o sol já se levanta outra vez. Cachorros cantam lá fora com sua voz melodiosa uma sinfonia de aus. E o silêncio absoluto começa a respirar os barulhos que estavam escondidos dentro dele.
Amanheço em mim como se amanhecesse só.
Mas amanheço muito.
Bolinhas de lembrança na boca que se abre me trazem o gosto do vinho que bebemos noite que passou. Minhas pálpebras vacilam, meus olhos piscam incessantes, como se aplaudissem o sol que se levanta, sangüíneo, entre nós três. Outra vez, distendo meus músculos de revolução poética, e me atiro de novo em seus braços — como se fosse um fuzil. Me atiro como se fosse pólvora.
E então peço à empregada:
— M., não troque os lençóis: foi neste cantinho da cama que ela encostou seu erotismo de musa. Não lave este copo: foi nele que tomamos o último vinho. Não tire nunca mais do banheiro aquela toalha azul clarinho, pendurada logo após o banho dela.
E então eu peço ao meu pai:
— Deus, não me tire do nariz o seu perfume, não tire dos meus olhos sua imagem, não tire do meu peito seu amor, nem me tire a vontade enorme que tenho de ser dela.
Me lembro de uma só palavra em alemão: Jungfräulichkeit.
A cada dia fico mais puro. Seu nome agora é Joyce Ann! Perto dela minha prudência perde a razão e meu espírito perde o fôlego. Como você pode perceber, sou fascinado por abismo; e o verdadeiro abismo é o que não tem referencial fixo. O abismo profundo, real — tanto pode ser para cima quanto para baixo, tanto para fora como para dentro. O verdadeiro abismo, este mesmo em que agora salto, em que já saltei, não é um lugar — nem a ausência de um lugar.
É um estado de espírito.
Sou fascinado por abismos, mas não por quedas.
Não é preciso cair, basta saltar — abraçado à vertigem.
Você sabe.
Sou as vezes meu escravo, outras vezes meu senhor. Como escravo não me obedeço, e como senhor não me domino. Cavalgo-me como se eu fosse meu próprio cavalo enclinado.
(Todos os hipócritas pensam que um dia venderei minha alma ao Diabo. Mal sabem, os coitados, que há muito tempo já comprei a alma Dele. As duas. E paguei à vista!)
Mesmo sabendo-o defectivo, flamejei meu verbo por Joyce Ann. A primeira vez que apalpei seus peitinhos quase morri de amor. Eu já havia feito massagem demorada na irmã de Juliana, e Joyce Ann nos assistia, delicada — interessante. Vejo dois olhos vivos, observando meus ademanes poéticos, românticos, dramáticos. Amaciei então com seda minhas mãos de creme, ajoelhei-me puro e gostosinho ao lado dela, e perguntei, braços levantados em posição de ataque:
— Posso?
— Sim... — respondeu como se já esperando por isso.
Pedi-lhe então que se deitasse no chão da sala onde havíamos dançado, apaguei as luzes, esqueci dos presentes e dos ausentes — e armei-me da inocência mais profunda que fui buscar dentro de mim. Levantei um pouco a blusinha azul, passei creme em sua barriga suspirante e mais ainda em minhas mãos. Deslizei meus dedos por toda aquela geografia de escândalo, inundei de branco e de pureza o seu umbigo. Depois, fiz mira no coraçãozinho dela e atirei poesias a esmo, como se fosse um arqueiro zen enlouquecido de amor.
— Sem limite, Joyce Ann?
— Hmm-hmm — nasalou a resposta, olhos fechados.
Jon Bon Jovi, no fundo, me dizia como se fosse eu: — It's Just Me. Me entreguei completamente! Quando voltei a mim, Simone, a irmã, nos olhava, perplexa. Fiz de conta que não era comigo, coloquei mais naturalidade ainda nos meus toques, mais creme e mais delicadeza em minhas mãos, e continuei. Com o indicador frente à minha boca respeitosa, pedi-lhe que mantivesse o silêncio na catedral do nosso amor.
— Shhh...
"It's just me".
Naquela oportunidade comecei a perceber que tudo passou a ser secundário. Everething but the girl. Joyce Ann, eco nasalado no céu da minha boca, carrilhão de gostosuras desdobrando para sempre a minha língua.
Milagroso óleo de Lorenzo que me cura e me procura!
Por isso, digo: Muito melhor é ser um trapezista cego voando a trinta metros de altura sem rede que lhe ampare se cair — do que ser um palhaço apenas que rola seu sorriso cansado pelo chão coberto de serragem triste.
Você sabe que a vida é um circo, cuja lona fica sempre aberta, escandalosamente aberta. Só não sabe qual será o seu papel.
(Nem se vai mesmo cair.)
A incerteza é que o sustenta no ar.
Eu, quando acaricio o corpo do amor, não quero ganhar nada — quero é me perder. Quando encosto o joelho no joelho da minha amada, também não quero nada — só quero me encantar outra vez com essa delícia inocente. Quando amo, não quero vitórias, quero me entregar. Em todos os atos puros de amor eu me dou, complexo, todo, imaculado. Coberto de inocência, candura e desejo.
Então posso dizer, sem medo de errar:
— Amo.
Não é nem um quarto inteiro que ela quer para si. Nem mesmo um armário todo, nem sequer uma portinha desse armário. Ela quer apenas uma gaveta onde guardar suas coisinhas, seus presentes, seus anéis, suas pulseiras, seus cartõezinhos coloridos, os bilhetes encantados que lhe dou, as poesias de amor que eu lhe dedico. Ela só quer uma gaveta onde guardar seus delicados objetos de ternura. Uma gaveta com chave onde possa preservar sua privacidade de menina apaixonada. Ela só quer uma gavetinha onde guardar o que sonha.
Para sempre.
Portanto, vou agora transformar meu próprio coração em gavetinha, só para dá-lo inteiro todo a ela.
Capítulo 13 do livro Solidão à Mil.
Continua.
Dê um click na foto e leia a íntegra um texto que começa assim:
Cause My Joyce Will Go Ann: Outono, sábado, 22 horas, 51 minutos, 17 de abril, a pressão atmosférica ao nível do Mar Azul do Guarujá é de 759 mmHg. Ao meu lado uma prova de que a Natureza pode às vezes ser perfeita. Peso: 49,9 kg, altura: 164 cm, pressão arterial máxima sistólica: 118 mmHg; mínima diastólica: 68 mmHg. Pulso: 92,8 por minuto. Idade: quatorze. Nome: Joyce Ann.
(...)
Nesse link citado você poderá ver algumas fotos recentes dela, que não estarão no livro por questões técnicas.Hoje, não-sei-quanto de já-eiro do ano passado, quero só ficar aqui, escrevendo, enquanto meu amor, descalça, lê num canto da sala — ambos imersos em distância e silêncio. Quero continuar vivendo com puro prazer essa solidão assistida, quero ter meu sossego sustentado por respeito mútuo e devoção recíproca. Mais tarde, talvez, nos daremos conta que somos dois, ambos desocupando o mesmo espaço infinito nesta geografia de amor. Então, nos daremos as mãos e nos amaremos de perto — de peito, de alma. Nos daremos de novo, de coração. E nos amaremos ainda mais — como se fosse possível.
Neste momento, escrevo à luz de velas, e Fernanda lê Alan Watts. Ao fundo, no outro canto, Jon Anderson seduz Vangelis.
Joyce Ann ainda não chegou da escola...
É a vida — e se você não a entende é melhor parar.
O desejo está na origem de todas as estrelas.
Quando tocamos o clitóris de uma delas, a noite escancarando de luar as pernas das estrelas abertas — isso é antes de tudo um exercício lingüístico amoroso e sideral. Amar um amor que já não amo é como defender uma idéia em que já não creio. Violentar a Razão — por qualquer razão — é um completo, é um terrível absurdo.
Assim como estuprar meu coração não me interessa.
(Nem a você deveria interessar.)
Sou capaz de colocar minha vida em tuas mãos se elas me tocam com amor. Por algum tempo, posso até me entregar, transferir minha alma inteira para dentro do teu corpo. Transformar-me num enorme coração apaixonado — e saltar no fundo mais profundo do teu peito. Mas, o poder de retornar continua sendo meu. Posso até dobrar um dia minhas duas asas, e deitar-me solto no teu colo.
— Mas jamais as cortarei!
(Asas demoram muito para crescer de novo.)
Eu sempre dobro minhas asas, em todos os sentidos. Às vezes, dobro-as como coladas fossem ao meu corpo, para facilitar a queda nos teus braços de ternura e romance. Outras vezes, por amor à Liberdade, dobro-as para poder ter quatro delas ao mesmo tempo.
E voar pra bem longe de você!
(Urgentemente.)
Aprendi a voar vários tipos de vôos, para toda ocasião.
Depois que tomei o verdadeiro gosto pela coisa, ficou muito mais difícil rastejar. Pouso às vezes, é claro — e tenho o poder de pousar onde quero, desde que o lugar, ele mesmo, não se esquive. A hora do pouso e quanto vai durar — sou eu quem decide. Se fosse diferente, nada faria sentido na vida. Nunca perderei a capacidade de levantar vôo, na direção que quiser, e pelo tempo que pretender.
Sou eu que determino as condições do meu vôo.
Não abro mão dessa prerrogativa.
Meu contrato é com o vento.
— Informal.
Jorge Luis Borges, pela delicada voz de Joyce Ann, me diz que a estação mais propícia à morte do amor é o passado. E que até as rosas e Aristóteles “também tiveram que morrer um dia”.
Mas ontem era domingo.
Um anjo voou sobre mim esta noite, derramou lágrimas no meu peito nu, sinal do seu amor, gotinhas de paixão por mim. Joyce Ann chegou a imaginar a morte levando-a daqui para sempre. Quem então apagaria a luz quando eu dormisse? Quem fecharia meu livro aberto caído na cama? Quem me cobriria no próximo inverno? Quem passaria tão delicadamente minhas camisas azuis? Quem seria capaz de amar-me como ela me ama? Quem me compreenderia tanto, tanto?
Então Joyce Ann chorou de novo, e mais.
E eu.Isto são pedaços de um amor infinito e indespedaçável.