30.5.10

Se eu pudesse começar de novo

A vida é muito curta.

Isto é fatal.

Mas,
se eu pudesse começar
de novo,
tomaria certos cuidados que nem sempre tomei.

Jamais teria permitido
que me prendessem,
ainda que em nome do amor.

Teria quebrado as correntes logo no início.

Teria tido menos pressa
e mais coragem.

E nenhum sentimento de culpa.

Daria valor secundário
a todas as coisas secundárias,
e consideraria secundário tudo aquilo
que não tivesse o efetivo poder de causar
mudanças significativas no rumo
da minha vida.

Todas as manhãs começariam
com meditação, orgasmo e frutas leves.


Se pudesse começar de novo,
dançaria muito mais
do que dancei,
e brincaria muito mais do que brinquei.

Minha Vida seria uma festa...

Se pudesse mesmo começar de novo,
seria mais espontâneo.

Seria mais ousado:
A ousadia move o mundo.

Desobedeceria
todas as regras injustas,
e afastaria os preconceitos e a hipocrisia.

Procuraria respeitar sempre
o Deus de cada um.

Teria viajado muito mais do que viajei.

Correria mais riscos.

E teria tido seis milhões de amores profundos...

Se eu pudesse começar outra vez,
iria aprender com os erros dos outros,
e com os acertos também.

Andaria mais leve:
não levaria comigo nada que fosse
apenas um fardo.

Não teria desperdiçado tanta vida
e tanto tempo.

Não teria tentado salvar todo mundo.

Amaria muito mais a liberdade.

Viveria cada minuto
como se Deus
derramasse flores e estrelas na minha cabeça.

Tentaria uma coisa nova
todos os dias.

Em tudo que fizesse colocaria
mais Poesia,
mais Amor, mais Alegria.

E teria feito a opção de ser feliz
muito mais cedo
do que fiz.

Edson Marques
Manual da Separação
página 71

15.5.10

Eu amo

Eu Amo Vocês Duas


Ela é indispensável - Você é fundamental.

Você é maravilhosa, ela é fascinante;
Você é amor, Ela é vida;
Você é divina, Ela é perfeita!

E ela não te exclui da relação: - Ela te aceita, ela te ama...

Mas você às vezes pretende excluí-la,
afastá-la de mim.

Por isso, se eu tiver um dia que optar
por uma só de vocês duas
- eu ficarei seguramente com Ela.

Mas eu amo vocês duas.




Será preciso dizer que o nome dela é Liberdade?

12.5.10

convictions

Temos que ser infiéis às nossas convicções...
Ou não mudaremos nunca.

5.5.10

lucifer

Lúcifer, o iluminador, não deve ser confundido com Satanás, uma invenção de religiosos conservadores. A diferença fundamental entre ambos é a seguinte: enquanto Satanás foi criado para impor medo, Lúcifer é um fornecedor de coragem. Um revolucionário. Um símbolo de resistência à Autoridade. Um rebelde inteligente. Lúcifer, em grego, é Fósforos. O planeta Vênus, que de manhã se chama Lúcifer, à tarde se transforma em Vesper. Filho da Aurora e de Zeus, Lúcifer é o condutor de todos os astros. Ajudado pelas Horas, toma conta do carro do Sol e de seus belos cavalos brancos. É ele quem anuncia aos mortais, todos os dias, a chegada da Aurora, sua mãe. Lúcifer, repito, é um fornecedor de coragem. É a estrela da manhã. É um deus.


Se eu tivesse um filho, ele se chamaria Lucifer Marques.

Que melhor homenagem eu poderia prestar a um descendente?

25.4.10

amar é reconhecer

Amar é reconhecer afetuosamente o direito que o outro tem de fazer suas escolhas (mesmo que essas escolhas me excluam). E eu agora me lembro do que disse Roberto Freire, na sua Declaração do Amor Anarquista:

"Porque eu te amo, tu não precisas de mim. Porque tu me amas, eu não preciso de ti. No amor, nunca nos deixamos completar: somos, um para o outro, deliciosamente desnecessários."

18.4.10

não creia em mim

Não creia cegamente no que eu digo.
Questione todas as convicções – inclusive as minhas.
Mas principalmente as tuas!

10.4.10

vida e morte


A Vida é um jogo, onde só podemos ganhar
aquilo que arriscamos.

E parece que hoje não estamos ganhando muito,
nem perdendo muito.
Nenhuma derrota acachapante, nenhuma vitória espetacular.
Nenhum ato grandioso e nenhuma desgraça.
Nenhuma nova paixão inesquecível.
Nenhuma queda profunda e nenhum salto mortal.
Nem pra cima — nem pra baixo.
Nada!
Nem escuridão, nem brilho, nem glória, nem tragédia.

Assim, a nossa vida.

Segura, regular, pacata, certinha e normal.

Tudo em ordem, tudo estável e bem comportado.
Tudo em brancas nuvens...
Mas tudo meio tépido,
meio chato, meio frouxo, meio mole.
Meio apagado.
Meio cinzento e meio sem graça.

Assim, a nossa morte.


E parece que nem percebemos a diferença...

3.4.10

cresci como os deuses

Cresci como crescem as magnólias e os gatos. Cresci como crescem os machados e os sândalos, as margaridas e os girassóis. Cresci como crescem os pequeninos e os inocentes. Cresci como crescem os Deuses.


E agora?

1.4.10

nasci dentro de mim

Eu já nasci dentro de mim. Depois foram me arrancando à força, foram, com violência, me tirando de mim mesmo. Tiraram primeiro a minha inocência, depois tiraram aquelas coisas que eu amava: minha gratidão pela vida, meu entusiasmo pela vida, meu maravilhamento pelas pequenas coisas. Tiraram-me a alegria pelas pedrinhas com que eu brincava, a alegria pelos meus brinquedos, tiraram minha inocência, cada vez mais, e foram então colocando dentro de mim aquelas coisas horrorosas, foram colocando responsabilidade, colocaram medo, preconceitos, moral, a idéia de pátria, o conceito de família, a necessidade do trabalho, de uma religião castradora, procriação, pecado, pressa, essas coisas...

Tiraram minha inocência de pegar em suaves mãos desconhecidas e passear por qualquer lugar; tiraram minha inocência de ver a beleza de um pardal. Ensinaram-me que qualquer número elevado à potência zero é igual a um; ensinaram-me verdades e mentiras, e mentiras que diziam ser verdades. Tentaram colocar em mim a necessidade de seguir regras. Me disseram que o juízo de valor que se faz sobre um fenômeno é mais importante que o próprio fenômeno. Disseram-me para ter opiniões e defendê-las até à morte — mesmo que erradas. Me ensinaram que existe o certo e o errado, mas não me contaram que às vezes o certo é errado, e o errado também pode ser certo. Me falaram sobre Euclides e as certezas, mas me esconderam o Einstein e as dúvidas. Quiseram me fazer esquecer como se questiona...

E depois, além da inocência, me tiraram a liberdade. Me disseram que eu só poderia sentir fome em determinados horários. Me disseram que o meu sono ocorreria sempre às oito e quarenta e cinco da noite, e que eu deveria acordar-me às sete e trinta da manhã. Foram muito precisos ao indicar-me caminhos, e horas, e prazos, e regras, e riscos — e temores. Me disseram que o próprio Deus que criou a natureza, o mundo, e todas as coisas belas, era o mesmo Deus que me olhava lá de cima, com seus olhos de rancor, brabo, sério, vingativo, rigoroso... E que Ele trazia sempre um arco e uma flecha de raios para atingir-me se eu cometesse pecados.

Me explicaram detalhadamente o que era pecado, e que eu poderia ser "queimado no fogo do inferno" mesmo se apenas pensasse coisas impróprias. Disseram que existe um monte de coisas condenáveis, e um monte de outras coisas enobrecedoras e "saudáveis".

Tiraram de mim a inocência de olhar nos olhos de um estranho — e ver neles só amor e mais nada. Me disseram para trilhar apenas os caminhos conhecidos, porque mais seguros. Disseram que eu não deveria nunca amar a aventura, nem arriscar-me pelo novo. Depois, pouco a pouco, foram tirando de mim aquela doce, aquela inocente capacidade de maravilhar-me com pedrinhas coloridas na beira da estrada; de ficar extasiado com uma borboleta que pousasse no meu colo. Disseram-me que não tinha sentido ficar olhando formigas; disseram-me para não mais andar com aqueles meninos pobres e loucos e puros, nem com aquelas meninas gostosas que sorriam pra mim. E que eu devia "acompanhar apenas as pessoas de bem".

E depois, pouco a pouco — mas com determinação — foram cada vez mais me tirando a liberdade. E não apenas tirando-me a liberdade: eles queriam era matar em mim o próprio desejo de ser livre.

Quase conseguiram...

Mas ficou, bem lá no fundo do meu coração, uma semente, uma pequenina semente que agora germina. E volto aqui outra vez para dentro de mim. E trago de novo aquela inocência outrora perdida.

Agora, para sempre: qualquer outra coisa que faça, que não seja isto que eu quero, será uma demonstração de que estarei desperdiçando, outra vez, a minha própria vida — a minha única vida.
A minha única Vida.

27.3.10

se acaba o mistério

Os deuses não podem ser cotidianos. Se acaba o mistério, morre o encanto. Ao passarem a dormir juntos na mesma cama, aqueles que se amam assinam a sentença de morte da sua paixão. Kundera já me dizia do horror que é o sono compartilhado. É fatal. Doçuras repetidas se desgastam de forma irreversível. O açúcar vira sal. Excesso de presença faz buracos enormes na paixão — e o Amor não resiste. Ainda que seja preciosa uma pedra, se a polirmos demais ela perde seu brilho. Às vezes, uma correntinha de ouro não passa de um nó na garganta. Outras vezes, nos enforcamos com um maravilhoso colar de pérolas gregas. Impossível continuar amando alguém que se vê todo dia — a menos que se chame de "amor" essa coisa sem nome que às vezes sentimos...


Isto são reflexões de um personagem do meu próximo livro Teoria do Acaso. Página 201. O livro de Kundera a que ele se refere é o belíssimo Insustentável Leveza do Ser. Eis um trecho: "Um sobre o outro, eles cavalgavam juntos. Iam juntos em direção às distâncias desejadas. Atordoavam-se numa traição que os libertava. Franz cavalgava Sabrina e traía sua mulher, Sabrina cavalgava Franz e traía Franz." Leia aqui o livro do Kundera.

23.3.10

el dia que me quieras

Nasci em Moscou. Duas simpáticas amas cuidavam bem de mim, falando sempre em espanhol e inglês. As jóias da família permitiram que eu viesse a estudar em Cambridge. Publiquei meu primeiro romance aos 39 anos, depois que uma Lolita surgiu em minha vida. Ou nasci talvez em Buenos Aires, e descobri o Alef enquanto minha mãe ouvia El dia que me quieras, cantada por um uruguaio conhecido por Gardel. Papai era violinista, minha avó lia a Bíblia em inglês para mim todos os dias e nossa biblioteca tinha três mil volumes, fiquei cego, virei gato. Ou, na verdade, nasci em Itararé, numa casinha de madeira ao lado de uma roseira branca, no finzinho de uma rua principal; minha mãe era cantora lírica e meu pai, um comerciante de pedras preciosas que gostava de Robert Louis Stevenson; já li mais de mil e quinhentos livros, já amei mais de mil e quinhentas mulheres. E publiquei meu primeiro romance, “Beijos no céu da boca”, aos 23 anos.

Não sei em qual dessas três histórias eu mais creio.
Não sei qual delas é a mais fantástica.

20.3.10

poema para minha mãe

Dê um click na imagem e leia o original.


Em 1980 minha Mãe era assim:


19.3.10

o que eu sinto

Culpa, medo, ódio, vergonha, ciúme ou rancor: eu não sinto nada disso!
Eu só sinto Amor!

E você?

16.3.10

meu pai ressuscitou

Quando meu pai chegou em nossa casa na manhã seguinte eu estava no armazém, escrevendo num papel de embrulho um poema de amor, mentalmente dedicado a Sonia Maria, e que era assim: “Depois de acender estrelas / no teu céu da boca / depois de vasculhar os teus encantos / depois de ultrapassar os teus limites / acabei concluindo / que só a união / de duas grandes espontaneidades / pode gerar / e manter / por algum tempo / um belo caso de amor”.
Em voz alta, meio sonolenta, leu duas ou três vezes esse poema, passou carinhosamente a mão na minha cabeça e antes de ir para o seu quarto rosnou um elogio inesperado: “Bonito, filho! Muito bonito! Escreva mais, escreva mais!”
(Eu só tinha doze anos, e acho que esse elogio me levou a ser hoje um escritor.)

Alguns conselhos que ele me dava: “Não minta. Não roube. Não fume. Não beba demais. Não se misture com a ralé. Nunca coma de marmita. Não bata cartão de ponto. Não use sapatos velhos. Estude bastante. Nunca brigue com tua mãe. Leia dois jornais por dia. Ouça rádio. Respeite tua vó. Encaminhe teus irmãos.”
(Segui todos esses conselhos. Só os irmãos é que não consegui encaminhar com meu estilo de vida: ficaram todos “normais”...)

Meu pai nunca nos disse que gostava de poesia, mas certa vez mandou que plantassem trezentos e sessenta pés de girassol no fundo do quintal. Depois que as plantas cresceram ele ficava todos os dias lá no fundo, sentado feito Cazuza num banquinho de madeira, sorrindo, olhando os girassóis girarem. Ele — no fundo, no fundo — talvez fosse um poeta, mas nunca nos contou.

Quando morreu, morreram as circunstâncias carcereiras de si mesmas que eu trazia no meu peito. Embora houvesse ainda um monte de coisas não resolvidas, penduradas num passado que teimava em resistir, foi fatal o tipo de adeus que nos ligou aquele dia. Antigas imagens opressoras se apagaram com o tempo, uma a uma. Tudo que de mal havia foi-se antes, ficando livre o terreno para que pudéssemos talvez amá-lo um pouco. Vivíamos uma suspensão temporária das hostilidades, uma espécie de paz armada, com certas escaramuças de vez em quando na fronteira do nosso amor.
As lembranças mais recentes eram brandas, quase delicadas, com exceção da pressa e de algumas ilusões. Claro que foi chocante sua partida, a forma como se deu. Assim como a nossa, a vida dele era um jogo — e o perdeu.
(Quando descasco a cebola da existência meus olhos ardem.)
Mesmo as oito horas que se passaram entre a ciência da sua morte e a visão do cadáver por sobre a mesa não foram suficientes para acalmar meu coração alvoroçado. Embora vencedores, os filhos trazíamos na boca um amargo sabor de derrota iminente: talvez um maior inimigo já estivesse à espreita das crianças que éramos então. Porque imprescindível seria o retorno da mãe que aparentemente pretendia morrer para salvar-se daquela vida.
À beira do caixão eu descobri que meu pai passou a ser meu mais recente amor eterno. E declamei para ele, em silêncio, o poema com esse título que criei na hora. Chorando lágrimas secas.(Depois eu declamo o poema pra você também.)

Naquela noite minha mãe arrumou-me a cama em que ele dormia, no quarto que fora meu quando morava lá. Cumprindo ordens de um deus que só ela ouvia, puxou-me pelas mãos quase chorando e me disse, séria — não como mandasse, nem como pedisse:
— Você dorme aqui.
Olhei para o duplo símbolo de morte, vazio que esteve antes de mim, agora bem arrumado e com muito amor pela mulher que passou a ser viúva de si antes mesmo de lhe morrer o marido. Era como se passasse creme nos meus pés rachados... De novo olhei firme para a cama e o lençol de metáforas que a cobria, e aceitei jogar ali por um dia o meu corpo. Mas disse à minha alma assustada:
— Vai-te agora para bem longe daqui!
“Voa, alma, voa rápido — mas volta, por favor, volta buscar-me amanhã de manhã!”
(Ela voltou.)

14.3.10

colônia de vermezinhos

Dizem que havia uma colônia de vermezinhos graciosos no fundo de um lodaçal. De vez em quando, alguns subiam à superfície e nunca mais voltavam. Isso deixava perplexos aqueles que permaneciam no fundo. "O que será que tem lá em cima, que tipo de perigos pode haver?" — eles se perguntavam.

Até que certo dia um deles acordou, pôs as duas mãos no coração e prometeu sinceramente aos seus irmãos: — Vou subir, e depois volto para contar a vocês como é o mundo lá em cima. Preparou-se muito bem, leu Osho e Henry Miller, armou-se de inocência e de coragem, aguou suas plantinhas, despediu-se dos amores, atualizou o blog, desfez as malas — e subiu.

Ele tinha intenção de voltar. Mas, assim que chegou à superfície, viu a Luz, transformou-se numa libélula, criou asas — entusiasmou-se! — e voou livre como um louco para o azul do céu...

E agora já não pode mais retornar ao fundo.

Morreria se voltasse!

Certas promessas jamais serão cumpridas.